O estilo DG – Entrevista com Death Gun BR
3 de fevereiro de 2010 por Pedrones
“Só consegui jogar Street Fighter IV off line uma vez em João Pessoa”.
Death Gun BR, campeão do Versus Rio 2010, revela as dificuldades para um nordestino se tornar top player no Brasil.

A primeira coisa que reparei quando cheguei na Rio Virtual Arena foi um cara sentado jogando Street Fighter IV de Ryu com 30 ou mais vitórias. Só quando levantou-se, provavelmente por vontade própria, pude ver melhor quem era, um sujeito grande, com cabelos compridos e a barba por fazer. Perguntei para um moço que estava do meu lado quem era aquele cara, e ele respondeu: “Eu não sei”.
Para a grande maioria da comunidade de fighting games no Brasil, DG ainda era um ilustre desconhecido. Mas isso estava prestes a mudar. Conforme o campeonato ia rolando, DG foi vencendo todas as suas lutas de forma fulminante. Houve quem dissesse que ele estava com sorte e logo perderia. Não perdeu. Na final dos winners, venceu o temível Sagat de Gastón com surpreendente facilidade. Na Grande Final versus Alexis, jogou com a torcida contra e mesmo assim foi campeão.
Mas antes de vencer o Versus Rio, DG teve que vencer as dificuldades de morar em uma cidade com conexão de internet ruim e sem uma cena arcade ativa. Na entrevista a seguir, ele esclarece esses detalhes e conta a sua trajetória para se tornar um grande jogador.
– por Pedro “Pedrones” Sirna
VS – Antes de mais nada quero parabenizá-lo pelo título no Versus Rio. Foram finais emocionantes. Agora fale um pouco sobre você. Quantos anos você tem? Onde você mora? E o que faz da vida?
DG – Obrigado Pedrones, também quero mandar um abraço para todo mundo do Portal Versus. Meu nome é Gregório da Costa, tenho 26 anos, moro em João Pessoa, Paraíba, e atualmente trabalho no ramo de telecomunicações. Eu tenho um pequeno provedor de Internet na minha cidade que requer uma boa parte do meu tempo, mas nas horas vagas sempre vou pra live jogar Street Fighter IV.
VS – E a conexão em João Pessoa é boa?
DG – Em João Pessoa não tem muita concorrência local entre as grandes empresas de telecom (que é quem fornece conexão). Mas o principal agravante não é a estrutura, e sim a nossa distância para o pessoal do sul. 90% da base de jogadores está em São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. E não conseguimos jogar com esse pessoal direito por conta da distância.
VS – Como é o cenário arcade da Paraíba?
DG – Não existe. Existiu até alguns anos atrás com The King of Fighters (KOF). Na época eu até participei um pouco dessa cena sempre como um coadjuvante, nunca fui um grande fã de KOF e nunca joguei competitivamente, sempre foi mais por diversão. E de lá pra cá a cena atrofiou-se completamente. Ainda há algum resquício. Algumas pessoas mantiveram seus controles arcades e de vez em quando combinam de ir à casa dos amigos fazer uma jogatina, mas é um negócio muito raro de acontecer. A cena morreu mesmo. Eu só consegui jogar SF4 off line uma vez em João Pessoa.
VS – Quantas horas você treina por dia?
DG – Eu não tenho uma rotina bem definida de treinos por causa do meu trabalho. Eu tento jogar sempre após a janta, por volta das 21 hrs, mas infelizmente só aparece gente para jogar na live depois da meia noite. Acaba que eu tenho que ficar jogando até duas, três horas da madrugada, mesmo precisando acordar cedo no dia seguinte. Então a quantidade de horas varia muito. Mas vamos arredondar para entre 10 horas a 12 horas semanais.
VS –Por que seu apelido é DG?
DG – Essa história é antiga. Há quase dez anos atrás eu jogava um jogo de tiro em primeira pessoa chamado Outlaws. Era um jogo do faroeste e tinha uma arma muito boa – a Death Gun –, e como eu só jogava com essa arma decidi que meu nome nos jogos seria o dela. Acabei levando esse nome para outros jogos como StarCraft, que foi onde comecei a jogar online de verdade e a ficar conhecido por Death Gun. E depois pela abreviação, o DG.
VS – Alguns dias antes de participar do Versus Rio você foi campeão de um campeonato em Recife. Pode contar um pouco sobre ele?
DG – O pessoal da eXtreme Fight Zone está tentando movimentar a cena de Pernambuco e consequentemente de todo o nordeste fazendo campeonatos regularmente. Eles sempre estão fazendo campeonatos, se não é de Street é de algum outro jogo, mas sempre estão fazendo campeonatos. Este por exemplo foi uma parceria com a Saga, faculdade voltada para criadores de jogos, e foi muito bem coordenado. O ambiente era bom, as partidas rolaram no tempo certo, tabela bem organizada, premiação boa (Playstation 2), e contou com quase 50 participantes. O Léo do eXtreme está de parabéns. A cena de Recife não é tão avançada como a do sul, mas está evoluindo a passos largos. Eu participei de um campeonato lá logo quando saiu SF4 para PC, por volta de agosto de 2009, e o nível do pessoal estava muito mais baixo. Deu uma subida boa e a tendência é essa, continuar evoluindo por causa desses eventos que o Léo está organizando. Espero que esta minha vitória no Versus Rio incentive ainda mais os jogadores nordestinos porque é fundamental ter uma cena local forte para a gente treinar.
Luta 1 da final do campeonato organizado pela eXtreme Fight Zone em parceria com a Saga
VS – Pretende participar de outros campeonatos em Recife?
DG – Vou participar de torneios em qualquer lugar do Brasil ou no exterior, só vai depender de como eu vou estar de tempo, dinheiro e habilidade.
VS – Qual critério você utilizou para escolher o Ryu como seu personagem no SF4?
DG – Eu tenho essa mania de jogar com o personagem principal. Não gosto de jogar com boneco overpower, embora o Ryu não seja fraco. Eu gosto de jogar com boneco equilibrado e o Ryu é definitivamente isso. É o mais equilibrado do jogo. Não tem nenhuma partida que você jogue contra ele que a chance do seu oponente ganhar seja muito maior ou muito menor que a sua. Uma vez o Alex Valle falou uma coisa que eu concordo, ele disse: “se você perdeu para Ryu você foi subjugado, o Ryu jogou melhor do que você, se você jogou de Ryu e perdeu para alguém, o cara jogou melhor do que você”. Não tem muito para onde correr. O Ryu é um personagem completo, mas todos os golpes dele dão margem para contra-ataque. Se você jogar direito com ele você vai ganhar, se fizer besteira você vai perder. Não tem muito segredo. Vou continuar jogando com ele.
VS – Além de SF4, que agora todo mundo sabe que você joga em altíssimo nível, quais outros jogos você também se considera competitivo?
DG – Minha história nos jogos de luta é recente. Só comecei de verdade há um ano atrás jogando no GGPO. Mas acho que se eu voltar a treinar posso dar trabalho no Super Street Fighter II Turbo. E com um pouquinho de treino também posso ser competitivo em qualquer jogo de estratégia. Inclusive já viajei para outros países no passado para disputar torneios com esses jogos e agora estou esperando pelo Strarcraft 2. Se for interessante, também pretendo dedicar uma parte do meu tempo a ele.
VS – O que você espera do já anunciado Super Street Fighter IV?
DG – Espero um netcode decente no SSF4, apenas isso. Quanto ao resto eu não dou a mínima. Claro que sempre se espera por um jogo mais balanceado e tal, mas 99,9% da minha preocupação em relação ao jogo é a respeito de como vai ser o netcode dele.
VS – Em qual plataforma você joga?
DG – Jogo no PC. Meu último videogame foi um Mega-Drive. Depois do Mega nunca mais tive videogame na minha vida. Agora tenho dois (risos). Mas todos os jogos que joguei competitivamente foram no PC.
VS – E qual controle você usa para jogar SF4?
DG – Eu montei um controle arcade inicialmente com joystick e botões sanwa e posteriormente troquei os botões por seimitsu porque não me sentia muito seguro jogando com os botões sanwa. Achava que estava errando algumas execuções por causa deles, mas depois descobri que 10% dos meus erros era por causa dos botões e 90% por causa da execução. Mas agora já me acostumei com os seimitsu e vou continuar com eles. A caixa fui eu mesmo que montei, fiz o layout que é bem diferente dos padrões japoneses, ele tem uma curvatura para a mão, mas como eu aperto os botões de mesma força com o mesmo dedo; soco fraco e chute fraco (throw) com o indicador, soco médio e chute médio (FA) com o médio, tive que fazer um alinhamento nos botões diferente daquele padrão japonês. Então uma pessoa que joga com o Mad Catz não vai conseguir jogar com o meu controle, e vice versa. E por coincidência meu controle durante o Versus Rio estava com problema no joystick. O micro-switch dele estava defeituoso. Mas daí o Mero apareceu do nada só com uma alavanca sanwa na mão. Foi coisa do destino. Eu peguei e troquei, senão não teria nem participado do torneio porque não consigo jogar com outro controle.
controle arcade com layout feito pelo próprio DG
VS – Já que você tocou no assunto, vamos falar sobre o Versus Rio 2010. Qual foi a maior dificuldade que você encontrou para vencer o torneio?
DG – A minha maior dificuldade foi a falta de experiência. Como eu moro longe não tenho como treinar com muitas pessoas e acabo não aprendendo a jogar contra vários bonecos. Contra Dhalsim e Akuma a minha experiência era zero. Foram as partidas mais difíceis porque foram todas na base do improviso. Por incrível que pareça as partidas mais tranquilas foram contra o Sagat porque 60% do tempo que jogo online é contra ele. A luta contra o Sarda foi muito difícil e as contra o Lin também foram muito complicadas. Não dá pra dizer qual das duas foi a mais difícil porque ambas as lutas foram vencidas no último round e com muito sufoco. Então não teve partida fácil.
VS – Qual foi a luta mais emocionante que você já teve?
DG – Com certeza foi essa final porque foi o maior torneio de luta que eu já disputei. Tive algumas partidas interessantes online, mas não é a mesma coisa que com a galera gritando num torneio de nível nacional. Mas se for para citar outra por menção honrosa, foi a partida contra o Sarda que foi muito emocionante. Mas final é final. E teve momentos ali que meu coração estava saltando do peito e quase saindo pela boca. Realmente foi muito legal.
VS – Já sabe o que fazer com o prêmio?
DG – Eu estava pensando em vender, mas o pessoal falou que iria bater em mim se eu fizesse isso (risos). Então provavelmente vou comprar o SF4 do Playstation 3 e dar uma jogada na PSN para conhecer o pessoal que não joga de PC. Mas vou fazer isso mais pra frente porque agora eu tenho uns projetos pessoais que tenho que tocar.
VS – Como você define o seu estilo de jogo em uma só palavra?
DG – Acho que é o estilo DG (risos). Eu tento ser como o Bruce Lee, ser água para me adaptar e me expandir. Ser agressivo quando for preciso, ser defensivo quando for preciso, saber arriscar na hora certa, e saber não arriscar na hora certa. Meu padrão de jogo depende do oponente, tanto do boneco como da pessoa em si. Levo em consideração muito o psicológico. Eu sinto como está a situação no jogo e tomo a decisão na hora. É muito pouco planejamento e muito mais feeling do momento. Esse é o meu estilo. Esse é o estilo DG.
VS – Como um dos membros do Portal Versus, gostaria de saber o que você mais gosta e o que menos gosta no portal?
DG – A comunidade em si é muito legal. As pessoas são gente boa demais. Logo de cara eu já gostei. Mas o principal são todos os tutoriais e as novidades do blog. Isso é o que de cara faz você se apaixonar pelo local. E o que eu não gosto, é que como na internet sou um cara muito fanfarrão, muita gente não consegue interpretar o sarcasmo e a ironia dos meus posts e acaba gerando muita confusão. Isso acontece em qualquer fórum, mas a gente conversa e vai se entendendo. Eu até estava começando a pegar fama de troll. Mas não é isso não pessoal, eu sou gente boa. Em outros fóruns mais antigos o pessoal já entende melhor as minhas piadas, mas no Versus, por ser um fórum mais novo com gente que está chegando agora, essas mesmas piadas não são entendidas direito e muitas vezes são levadas para o lado pessoal. Quero deixar claro que se alguém se sentiu ofendido por algum post meu fique tranquilo, foi só uma piada. Eu sou da paz (sorriso maroto).
VS – Valeu DG, foi muito bom falar com você, algo mais que você queira dizer antes de acabarmos?
DG – Gostaria de mandar um abraço para todo mundo do Portal Versus e para toda comunidade de fighting games do Brasil. Sou mais ou menos novo nesta cena e foi muito bom conhecer toda essa galera. A Equipe Versus está de parabéns. O evento (Versus Rio 2010) foi de primeira linha e super bem organizado. Como foi planejado com antecedência deu pra vir gente de todo o Brasil. Show de bola. Continuem assim! Espero que daqui pra frente a nossa cena de fighting games comece a crescer de verdade. Um abraço para todos.
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Este post foi publicado em quarta-feira, 3/fevereiro/2010 às 1:49 na(s) seção(ões) Artigos, Notícias. Você pode acompanhar as respostas a este post através do feed RSS 2.0. Both comments and pings are currently closed.


